Você ainda não foi? Então vá!…

Texto e fotos: Claudia Ferraz

Quilombo Campinho da Independência
Quilombo Campinho da Independência

Parada obrigatória para quem quer fazer turismo cultural na região de Paraty, o Campinho da Independência é hoje um local que surpreende em matéria de lazer diferenciado e organização comunitária. E não agrada apenas ao turista. Os moradores da região costumam curtir as boas compras de artesanato e a boa mesa do restaurante local, com seu cardápio caprichado na linha da gastronomia sustentável.Veja o que há mais por lá e programe-se para viver um dia diferente junto aos quilombolas, a poucos minutos de Paraty.

Loja com artesanato do Campinho
Loja com artesanato do Campinho

Quem vê as placas na Rio-Santos, entre Ubatuba e Paraty, no km 584 da BR-101, pode achar que se trata apenas de mais um restaurante comum, à beira da estrada. Não se engane: siga, sim, a placa e aposte em horas agradáveis numa comunidade quilombola –  com gente bonita, cheia de garra e boas histórias para contar.
Organizados e atentos aos benefícios de um turismo sustentável estruturado, os quilombolas do Campinho da Independência estão a cada dia mais preparados para receber os visitantes. Tanto que instalaram na estrada, no lado oposto à entrada do quilombo, um quiosque que funciona como uma espécie de cartão de visitas, por exibir o caprichado artesanato local. São utilitários de decoração em trançado de fibras e materiais da região – tapetes, pufes, cestos e balaios em acabamento invejável. Resistir ou não a eles não impede de levar adiante a vontade de conhecer mais e experimentar o cardápio com “sabor e tradição” anunciado do outro lado da rodovia. É ali bem perto, apenas alguns metros de chão batido numa encosta e logo se chega ao grande terreno circular onde está instalado o Restaurante – o mais visitado espaço do Campinho da Independência – Quilombo do Campinho ou simplesmente Campinho, como diz a maioria.

 

Restaurante do Quilombo
Restaurante do Quilombo

Sabor da roça para almoçar sem pressa
Um certo apelo exótico, mesclado a uma decoração simples e colorida, dá as boas-vindas, deixando ver a cozinha escancarada ao fundo, com direito à fumaça saindo dos panelões e aroma de tempero caseiro tomando conta do ambiente. O cardápio é de abrir o apetite: a feijoada célebre aos sábados é bem servida com os tradicionais acompanhamentos – arroz, couve, laranja e farofa com torresmo; o azul-marinho, um prato de peixe com banana verde feito como antigamente; o bobó de camarão e a vaca atolada (costela bovina) feitos com aipim da terra e, entre outras sugestões, os especialíssimos peixe à moda quilombola, grelhado, com farofa de banana da terra, camarão e pupunha na manteiga, ou camarão flambado na cachaça com arroz, banana e taioba refogada… Difícil escolher. Sem contar as opções de entrada, entre elas as porções fritas de banana verde, que costumam agradar. E as caipirinhas de frutas, com a boa cachaça da região, não merecem ficar de lado…
Por essas e outras o restaurante está no Guia Brasil 4 Rodas 2013 e foi reconhecido nacionalmente com o Garfo de Ouro (veja foto), na ocasião da inauguração, em 2007. Mas nada caiu do céu na história dessa comunidade tradicional, que passou a ter direito à propriedade de suas terras em 1999, no dia 21 de março, data que marca o Dia Internacional da Luta pela Eliminação da Discriminação Racial. Já em 1994 era criada a Associação de Moradores do Quilombo do Campinho, AMOQC, que assumiu um trabalho coletivo, hoje bastante atuante no seu foco voltado à  sustentabilidade e geração de renda.
Vagner do Nascimento, o Vaguinho, presidente da Associação, não esconde o prazer em relatar as principais conquistas na história recente dos quilombolas do Campinho: “No início do restaurante foi difícil. Pouca gente conhecia o lugar, não havia atrativos e o fato de estar distante, fora do circuito da gastronomia de Paraty não ajudava muito. Mas a vontade era grande e no dia a dia fomos ganhando adeptos, parceiros. Hoje estamos praticando a culinária sustentável, usando ao máximo os produtos da terra em pratos elaborados e feitos pela comunidade. Afinal, a experiência que temos na cozinha vem dos nossos ancestrais”, orgulha-se.

Cozinheiras do Restaurante do Quilombo
Cozinheiras do Restaurante do Quilombo

Ele conta que na alta temporada chegaram a trabalhar  com dezessete pessoas na cozinha e no salão, porque o movimento é grande. “Não é raro ter o pátio do estacionamento lotado. Além dos turistas, muita gente que mora na região frequenta o restaurante, inclusive em dias de semana. No inverno o público muda, chegam grupos previamente agendados e o lugar virou ponto de encontro no quilombo, especialmente para escolas, professores, gente que vem dar cursos etc. Os eventos em geral que acontecem na cidade acabam refletindo aqui.”
Espaço para isso não falta. Quase todas as mesas do restaurante são enormes, servidas por bancos longos, que sugerem conversas também longas, sem pressa. “Pra mim é uma surpresa esse lugar tão acolhedor, cheio das riquezas da cultura negra nas cores da decoração, no cardápio… É tão perto de Paraty e tão diferente”, avaliou Célia Marcondes, do interior de São Paulo, que na volta para casa parou para almoçar com a família. “Valeu a pena, pratos saborosos”, opinou seu marido, que lamentou a necessidade de  pegar a estrada: “Não deu para tomar uma cervejinha gelada.”
Além do talento natural das cozinheiras, bons bocados de ervas, temperos e alimentos plantados ali no entorno contribuem para a qualidade do cardápio. Alfavaca, coentro, farinha da terra, jussara, limão e aipim da roça, tudo isso, além de saboroso, faz parte dos objetivos desse modelo coletivo de desenvolvimento social e econômico da comunidade. “É um desafio diário manter e fortalecer esse modelo”, ressalta Vaguinho, que também é agricultor.
Afinada com os propósitos da comunidade, Ana Claudia Martins, diretora da Associação, é outra que acompanha de perto esses avanços e se mantém vigilante na qualidade das tarefas. Artesã e também agricultora, é ela quem coordena o turismo no Quilombo. Assim como Vaguinho, ela é uma das lideranças locais.
“Em 2001, a Associação iniciou esse planejamento da vida comunitária com alguns parceiros de órgãos públicos, governo federal e estadual, por meio de oficinas para levantar as demandas – infraestrutura, organização etc. O fundamental, entretanto, foi o protagonismo local. E desde 2004 captamos recursos pela via de editais públicos”, diz ele.

Detalhes da decoração do Restaurante do Quilombo
Detalhes da decoração do Restaurante do Quilombo

Ana Claudia reforça: “O potencial das pessoas aqui na comunidade veio à tona na prática das oficinas. A gente aposta no talento de cada um. Um ponto importante foi investir no que chamamos de Roteiro de Turismo Étnico de Base Comunitária, projeto que dialoga com o artesanato, o viveiro de mudas, os núcleos familiares, as roças tradicionais, a agrofloresta, o jongo, o restaurante, as oficinas de cestaria e plantio. São ações integradas e no meio disso está a gestão dos quilombolas, que trabalham na construção desse nosso modelo coletivo”.
Ambos concordam que, apesar das dificuldades, a vida no Campinho já mudou bastante. “De 2001 para cá já é possível ver uma consolidação. Há dez anos, não se acreditava em turismo aqui. Hoje isso é uma realidade. É comum recebermos ônibus e vans lotadas com alunos de colégios do Rio de Janeiro e São Paulo. Há muita curiosidade em torno da nossa cultura, ao mesmo tempo que muito desconhecimento”, argumenta Vaguinho.

Um roteiro para ficar na memória
É justamente para levar a conhecer, informar, visando satisfazer curiosidades e favorecer a troca com os que vêm de fora, que se baseia a roda de contação de histórias – a primeira das atividades na programação do roteiro etno-ecológico proposto pelo Quilombo da Independência nas visitas guiadas. A roda costuma acontecer no amplo salão do piso superior do restaurante, com todos sentados no chão. Por cerca de uma hora, os grupos pré-agendados ouvem os relatos de um (ou uma) griô – pessoa mais velha, detentora da história, que conversa com os presentes, com mediação de um quilombola e de uma pessoa mais jovem que contextualiza os fatos antigos nos dias de hoje.

Grupo ouve relatos da história do Campinho
Grupo ouve relatos da história do Campinho

Além de Ana Claudia, costumam acompanhar a roda duas outras moradoras do quilombo, a Verônica Lasso Quintero, que traduz as conversas para o inglês ou espanhol; e Daniele Elias Santos, coordenadora da comunicação para viabilizar a realização do roteiro que, por sinal, faz parte de alguns pacotes de agências de turismo de Paraty. Daniele conta que é frequente o agendamento por grupos de estudantes, profissionais do meio-ambiente, pessoas envolvidas com as questões da agrofloresta e comunidades tradicionais, além de turistas em geral (veja os contatos para agendamento no boxe, ao longo da reportagem).
Além de episódios de lutas e conquistas, fazem parte do repertório das conversas nessa roda  a bonita história da origem do Quilombo Campinho da Independência, marcada pelo fato de que todos os moradores são descendentes de três escravas, vovó Antonica, tia Marcelina e tia Maria Luiza, e histórias pessoais dos velhos tempos, contadas pelos idosos da comunidade.
Dona Benedita, por exemplo, uma das griôs mais atuantes, adora contar as lembranças da mocidade, ainda no tempo do bisavô, quando ali naquelas terras não havia relógio nem bicicleta nem mesmo burro para se ir a Paraty trocar farinha por gêneros alimentícios e demais necessidades domésticas (sim, a farinha foi a moeda desse quilombo por muitos anos e por isso tem uma simbologia importante na comunidade).
“Eram quatro horas para ir e quatro para voltar. A gente carregava tudo nas costas e quem anunciava a hora de acordar muito cedo era o galo. Eu era moça, ia dormir com o cabelo penteado e amarrado com um pano para não desmanchar. Era o galo cantar pra gente sair depressa, porque a caminhada era longa. Na ida, carregando farinha, trocada na cidade por sal, sabão, querosene, carne-seca, cigarro. Todo o resto a gente tinha aqui: o óleo, que vinha da gordura do porco, a caça do mato, o feijão… Nosso café era o caldo de cana com o pó que a gente moía… Os antigos viviam mais de 100 anos, saíam de manhã pra roça depois de comerem pamonha, paçoca, inhame, raízes. Era difícil alguém ficar doente. Médico mesmo só quando é alguma coisa muito séria……As crianças a gente curava com banhozinho de mato, xarope caseiro, chazinho de rosa branca e muita reza… Até hoje temos esses costumes… A Tia Magdalena reza nossas crianças ainda, pena, hoje em dia ela anda meio dodoizinha…”

Apresentação de Jongo do Campinho no Centro Cultural São Paulo em 2014 - Foto: Ricardo Gaspar
Apresentação de Jongo do Campinho no Centro Cultural São Paulo em 2014 – Foto: Ricardo Gaspar

Conversas como essas, ricas em afetividade e memória, costumam envolver os visitantes que, depois da roda de conversa, saem a pé entusiasmados para conhecer (e reconhecer) as ervas do caminho – a guia identifica as espécies, informando para o que servem, como usar, etc . Saindo do viveiro de mudas, chegam ao campo de futebol (o “campinho”, ponto de referência nas terras que, desde o século 19, eram chamadas de Sertão da Independência e que, com a construção da Rio-Santos na década de 1970 e por causa da paixão pelo futebol, acabaram incorporando  o nome de Campinho da Independência), depois visitam um núcleo familiar , uma casa de farinha e, por fim, chegam à loja de artesanato, localizada junto à Igreja de São Benedito, ao lado da Escola Municipal e da Unidade de Saúde.

“Em geral, esse tour dura três horas, depende do entusiasmo do grupo”, sinaliza Ana Claudia. “Dá até para esticar para um banho de rio, se houver clima”, completa.
Sintonizadas, ela e Daniele informam que o roteiro tem ainda opções, como uma apresentação de jongo (dança de origem africana, ao som de tambores) ou oficina, coordenada pela quilombola Laura Maria dos Santos, do núcleo de educação e cultura da comunidade. Há também opções de prática de plantio e de artesanato, com a inclusão (ou não) de almoço.

 

Artesanato do Campinho
Artesanato do Campinho

Diversidade e capricho no artesanato
Bem de acordo com o modelo de gestão da comunidade, é também uma quilombola, Adilsa Conceição Martins, a responsável pela .loja de artesanato do Campinho. Mas não só. Ela também é vice-presidente da Associação de Moradores, agricultora, jongueira (isto é, dança jongo) , artesã, “mãe e avó”, faz questão de completar.
Adilsa conta que há cerca de trinta artesãos na comunidade, mas atualmente são quinze os que expõem na loja. “Esses são os que praticam, produzem regularmente”, explica ela, sem esconder o entusiasmo e a admiração pelo que está à sua volta. Cestaria, roupas artesanais, bichos de madeira, bijuterias, luminárias, bonecas de pano, utilitários de cozinha, móveis de bambu, peças de decoração… O interior da loja é uma coleção de peças coloridas e peculiares, com linguagens diversas.
“O artesão ganha por peça que vende”, esclarece Adilsa, que tem reconhecido seu trabalho em cipó, taboa, bambu e taquara. São dela muitas luminárias, enfeites para casa, e chapéus e bolsas charmosas. “O que mais vende? Ah, as pessoas procuram demais por descansos de prato, colares e pelas galinhas de madeira. Hoje nem há tanto para mostrar, é que terminou recentemente a alta temporada. É agora, na baixa estação, que a produção se intensifica e a loja vai ficando mais rica, preparada para a época das férias no meio do ano”, pontua ela.

Artesanato do Campinho
Artesanato do Campinho

Na loja, Adilsa faz parceria com Flávia Conceição Martins, que cuida do financeiro e também é guia na comunidade e artesã.  Apesar de lidar com dinheiro, seu talento ela gosta mesmo é de mostrar nas peças que faz, luminárias, por exemplo, com variedade de materiais, como folhas de coqueiro e sementes.
E para quem gosta de história, tanto quanto de artesanato feito com capricho e tradição, Adilsa lembra: “Essa loja foi criada há mais de vinte anos por uma quilombola de coração, a caiçara Magdalena Alves. Antes, os artesãos do Campinho da Independência vendiam em Paraty, para os comerciantes que só compravam pela metade do preço. Hoje a loja está estruturada para garantia dos artesãos quilombolas, e é um ponto importante de visitação no roteiro das visitas guiadas.”

Palavra de secretário
“Hoje, no Brasil, o Campinho da Independência é uma referência de comunidade que busca sua autosustentabilidade, independente de ser ou não quilombola. Não se pode dizer que é uma sociedade auto-sustentável, porque na verdade não é. Nosso povo não é diferente de ninguém, a gente vive numa sociedade de mercado, de consumo, e as pessoas buscam trabalhar fora, para ter sua grana, isso é um fato. Também dependemos dos governos municipal, estadual e federal como qualquer outra sociedade, mas eu não tenho dúvida: internamente, nos organizamos na construção de um modelo de desenvolvimento local. O que não significa que lá reina a  unanimidade. Como em todo lugar há conflitos, diferentes posições. Mas a gente lida com isso muito tranquilamente.” Quem faz essas afirmações é o quilombola Ronaldo do Campinho, como é conhecido em toda região de Paraty.

Ronaldo dos Santos, secretário de Cultura de Paraty - Foto: Prefeitura
Ronaldo dos Santos, secretário de Cultura de Paraty – Foto: Prefeitura

Figura combativa, com forte voz nos movimentos sociais, ele é dono de uma trajetória política que começou aos 20 anos de idade (hoje ele tem 36). Passou pelo MST, Movimento Sem Terra; ajudou a criar a Associação dos Moradores do Quilombo do Campinho (“minha grande escola”); foi o primeiro presidente da Associação das Comunidades Remanescentes dos Quilombos do Estado do Rio de Janeiro, Acquilerj, e candidatou-se por duas vezes a vereador, antes de se tornar secretário municipal de Cultura de Paraty. Ele sabe muito bem o que isso significa dentro de sua  larga experiência como militante. “Mas atualmente sou um gestor público da área de Cultura. Quem é do Campinho muitas vezes espera mais de mim; e quem não é de lá fica de olho para ver o quanto eu me dedico ao quilombo… Com tudo o que isso acarreta, no entanto, hoje faço parte de um projeto de cidade e não posso perder esse horizonte. Percebo que atualmente no Campinho isso está bem mais resolvido do que há seis meses, no início da gestão”, afirma.
O secretário Ronaldo dos Santos é da quinta geração de descendentes de Vovó Antonica, uma das três mulheres que fizeram a história do Campinho da Independência. “Ela era minha tataravó, mãe de minha bisavó Teodora, que era mãe de Gabriel, meu avô,  pai de Vilma, minha mãe. Na verdade nasci em São Paulo, porque na época minha mãe estava morando lá. Mas voltei às minhas raízes aos dois anos de idade”, conta ele, relembrando uma infância de menino quilombola, que cresceu ainda sem luz elétrica. “Nos primeiros tempos de escola, foi forte para a minha formação em 1988 viver o centenário da Abolição. Mais tarde, já estudando na cidade, aluno do segundo grau no Cembra (colégio estadual em Paraty), também me marcou muito perceber que em minhas turmas, a cada ano, ia diminuindo o número de alunos negros. No último ano do meu curso de magistério, eu era minoria absoluta na classe”, lembra.

Realidade Negra no Centro Cultural São Paulo - Foto: Ricardo Gaspar
Realidade Negra no Centro Cultural São Paulo – Foto: Ricardo Gaspar

Formado professor, lecionou por alguns anos, mas não considera essa sua profissão. Nem quis cursar uma universidade, preferindo experimentar diferentes experiências, em especial na militância. Sente-se mais verdadeiro se assumindo como músico, o que na verdade é há vinte anos. Sua banda de hip hop, Realidade Negra, já tem CD e DVD gravados.
Mas é quando fala da luta e dos avanços de sua comunidade que Ronaldo “do Campinho” reafirma a força de seu apelido. Os olhos brilham e o sorriso é largo para dizer do orgulho de ser quilombola de uma comunidade que avança em sua organização pela busca de seu próprio desenvolvimento. “ O artigo  68, que estabeleceu a política de regularização fundiária, é da Constituição de 1988. Nossa titulação, portanto, é de apenas onze anos depois da Constituição. Foi uma das primeiras no Brasil, em 1999. Não tenho dúvida, a titulação alavanca um processo de organização social. E a trajetória do Campinho, eu considero na direção correta. É um projeto pautado na coletividade, na identidade, na sustentabilidade, no sentido de gerar renda, de proteger o meio ambiente e promover equidade entre as famílias. Não podemos perder isso de vista.
O que precisa mudar na comunidade , por não estar condizente com todo esse avanço, é a questão da escola. O Campinho precisa de um projeto de educação que esteja contextualizado, afinado com o coletivo. Escola quilombola: essa é uma briga nossa de mais de dez anos”, finaliza Ronaldo.

 

POR DENTRO DO QUILOMBO DO CAMPINHO

Igreja de São Benedito no Campinho
Igreja de São Benedito no Campinho

A 20 km de Paraty, entre os povoados de Pedras Azuis e Patrimônio, o Quilombo Campinho da Independência, banhado pelo Rio Carapitanga, situa-se entre cachoeiras e vegetação da Mata Atlântica, numa área de 287 hectares, tendo como marco o campo de futebol.
No século 19, o nome do lugar era Sertão da Independência. Com naturalidade, pelo amor ao futebol, acabou sendo conhecido como Campinho da Independência.
Habitado por cerca de 150 famílias, sua população de 550 pessoas, com maioria de jovens e crianças, organiza-se em 13 núcleos familiares. Em cada um desses núcleos, a célula principal é a casa do casal mais velho, que tem em volta as moradias de filhos e netos. Não há cercas nem muros separando as casas. Quase todos os núcleos têm sua própria casa de farinha, o terreno com ervas e árvores frutíferas, e a criação de galinhas e porcos.

Escola Municipal Campinho
Escola Municipal Campinho

O artesanato é tido como uma das principais ocupações da comunidade, sendo que nos últimos cinco anos as maiores gerações de renda vêm do restaurante e de visitas guiadas.
Educação e saúde estão sempre na mira dos quilombolas. Desde 2008, a comunidade vem conquistando avanços na qualidade de vida, a exemplo de saneamento básico, acesso ao Programa de Saúde da Família e à educação, com a Escola Municipal Campinho. Mas uma das lutas atuais da Associação de Moradores é por uma educação diferenciada. Segundo seu presidente Vaguinho, “a escola convencional, com seu modelo de ensino de quinhentos anos, não atende a nossa demanda. É tradicional, deficiente, conservadora, careta… A gente trabalha para quebrar isso e efetivar como política pública essa educação diferenciada na qual acreditamos, baseada no nosso modelo de convívio. Por sermos ponto de cultura desde 2005, já tentamos introduzir no currículo da escola o Jongo, a Capoeira de Angola, a cestaria, o griô, como valorização dos saberes dos mais velhos.”

Posto de Saúde do Campinho
Posto de Saúde do Campinho

 

Por ocasião dessa entrevista, muitos jovens quilombolas estavam atarefados, em função de um curso sobre o SUS (Sistema Único de Saúde), voltado para os quilombolas, caiçaras e indígenas, em parceria com a UERGS, a Fiocruz e o Fórum de Comunidades Tradicionais, com apoio das secretarias municipais de Saúde de Paraty, Angra dos Reis e Ubatuba.

 

 

Horários
Restaurante: de terça a domingo para almoço, até 17 horas (no verão, até 21 horas). Não aceita cartão.
Loja de artesanato: diariamente das 9 às 17 horas. Não aceita cartão.
Visitas guiadas e agendamento do roteiro, com Daniele: turismoquilombocampinho@gmail.com
(24) 9 9988 8943 / 9 9931 6875 /  9 9816 7438

Quilombo: uma palavra cheia de histórias

(fonte: koinonia.org.br)

A origem do termo quilombo está nas palavras “kilombo”, da língua quimbundo (do grupo banto, falada em Angola) e “ochilombo” da língua umbundo (da etnia que habita as montanhas centrais de Angola). Há ainda outras línguas africanas com palavras similares para designar o significado original de quilombo, que se refere a um lugar de repouso utilizado por populações nômades.

No Brasil, a palavra tomou uma nova dimensão, inclusive recebendo em algumas regiões o nome de “mocambo”, para designar uma comunidade de escravos fugitivos, na qual a vida aconteceria de acordo com a cultura originalmente africana, nos âmbitos da cultura, da religião e da vida social.

Historicamente, inclusive, a definição jurídica de quilombo  sempre enfatizou a ocupação coletiva e ilegal da terra. Isto se vê claro na resposta do Rei de Portugal à Consulta do Conselho Ultramarino, em 2 de dezembro de 1740, ao conceituar quilombo ou mocambo, como “toda habitação de negros fugidos que passem de cinco, em parte despovoada, ainda que não tenham ranchos levantados nem se achem pilões neles”.

Depois de muita luta pelos direitos, veio a conquista da terra. E hoje  o termo é usado para designar a situação dos segmentos negros em diferentes regiões e contextos no Brasil, fazendo referência a terras que resultaram da compra por negros libertos; da posse pacífica por ex-escravizados; de terras abandonadas pelos proprietários em épocas de crise econômica; da ocupação e administração das terras doadas aos santos padroeiros ou de terras entregues ou adquiridas por antigos escravizados organizados em quilombos.

A definição mais precisa e atual está no decreto que regulamenta o procedimento de regularização fundiária: “São terras ocupadas por remanescentes das comunidades dos quilombos as utilizadas para a garantia de sua reprodução física, social, econômica e cultural.”

Portanto, ao contrário do que muita gente pensa, hoje o termo não tem essa conotação de passado, restrito aos tempos da escravidão. É uma palavra de uso corrente nas discussões atuais sobre cultura, especialmente quando se leva em conta a situação territorial das comunidades tradicionais – quilombolas, caiçaras e indígenas.

Comunidades remanescentes de quilombos existem em praticamente todos os Estados brasileiros. Levantamento da Fundação Palmares, do Ministério da Cultura, mapeou 743 dessas comunidades, sendo que há fontes apontando que podem chegar a dois mil no País. No Estado do Rio de Janeiro existem pelo menos quinze comunidades quilombolas, sendo que a do Campinho da Independência, em Paraty, foi a primeira a ter suas terras tituladas.

Histórias de vida e de lugares sempre me interessaram. Como jornalista, sou movida a ideias e boas pautas. Desde 2004 escolhi viver em Paraty, onde sou mais leve e contemplativa. Trabalho em casa, no meu escritório com alma e vista para o verde, e não me desconecto. Assumo completamente que o ambiente digital é uma das minhas praias preferidas, ainda mais agora, integrada à equipe do www.paraty.com.br . Escrever sobre Paraty, dirigindo-me a quem mora por aqui e a quem chega para curtir a cidade, é uma das minhas grandes fontes de prazer e inspiração. Outras são a fotografia e a cor azul, que me levaram a criar o blog http://adoroazuis.blogspot.com.br, para expressar o que encontro de azul no mundo. Claudia Ferraz

12 Respostas para “QUILOMBO DO CAMPINHO”

  1. Edson Tre disse:

    Paraty é um exemplo de preservação para o mundo. Por este motivo faz sucesso. Parabéns.

  2. Guiomar Ferreira de Barros disse:

    Estivemos dia 28/02/2017 no restaurante do Quilombo e foi aceito cartão de débito, sendo que, cartão de crédito não é bem vindo. Lugar maravilhoso, acolhedor, tudo de bom.

  3. Sindtapu disse:

    Boa tarde gostaria de saber se o restaurante estará funcionando dia 21/12 quarta -feira.

    Obrigada.
    Telma

  4. Arlete de Oliveira disse:

    Ola, me interesso por tudo que diz respeito a Paraty/Trindade.Amo essa cidade, sua cultura…. hoje assistindo ao programa planeta turismo me deparei com uma comunidade kilombola que me deixou fascinada, principalmente pelo sr. Ze Pedro da casa de farinha. Visito muito Paraty e Trindade e ainda nao conheço esse Kilombo.Pergunta:E permitido o acesso ao Kilombo sem ser com guia de turismo? Se puder me responder, ficarei imensamente grata!Ah! parabens por sua materia, bastante enriquecedora!!!!

  5. Monica Cohen disse:

    Ola Claudia!

    Bela reportagem!
    Como faço para entrar em contato com os artesões de cestaria?
    Aguardo seu contato.

    muito grata

    Monica Cohen

  6. Laura Maria dos Santos disse:

    Cláudia, enorme prazer em uma busca sobre o Quilombo Campinho, encontrar o seu blog e poder através dele repassar informações sobre o Quilombo, lugar maravilhoso que habito. Grata!

  7. Naide S Barbosa disse:

    Tomei conhecimento do Campinho através do programa da Fox Life, hoje 12/11/2015,Homens Gourmet.Por incrível que pareça não conheço Parati, morando no Rio de Janeiro. Agora tenho um grande motivo a mais para ir correndo a esta bela e cultural cidade. Muito obrigada por ajudar na manutenção de nossa cultura.
    Abraços. Naide.

  8. Nilda disse:

    Gostaria de saber o telefone ou email da pessoa que vende mel de jataí. Um amigo conseguiu um pouquinho está ficando bem da catarata mas quer comprar mais para concluir o tratamento

  9. luiz carlos martins disse:

    Claudia seu comentário sobre Paraty foi fundamental eu sou filho de Domingos martins filho da Maria Pomposa minha inesquecível vó que viveu conosco aqui em Santos .Estive ai em Paraty em 1965 fiquei um ano morando na casa do tio Pequenino que tempo bom nunca vou esquecer da minha tia saudosa Maria Delaide naquele tempo não tinha estrada nos caminhávamos a pé até a cidade levando farinha e bananas para vender passeava um pouco na cidade visitava o saudoso tio Euclides tio que eu não lembro o nome dele agora nos pousamos na casa dele e vinha embora no outro dia ha que saudades era quase o dia inteiro andando para chegar em casa .fiz muita farinha ia retirar banana la na outra banda cevei muita mandioca joguei muito futebol nesse campinho com o Baiano o timau o Alvaro o domingos que tempo bom da venda do tio que ficava na beira do campo nos íamos para o Patrimonio nas festas íamos e voltávamos correndo era muito legal mais o tempo passou mais a saudade fica no coração .hoje tudo mudou tem escola sus igreja restaurante possada do amansio é agora é so alegria mais tudo isso nos somos gratos pelos vossos esforço de continuar fazendo o campinho de grandes recordações Deus abençoe todos vocês e que continue nessa luta de preservar a comunidade

  10. Cara Claudia gostei bastante da tua matéria.Bem escrita e demonstra que você conhece a realidade de Paraty e do Campinho.Moro em São Paulo mas frequento Paraty desde 1977 e atualmente sou o diretor musical da Caravana Paraty, ligada ao defeso cultural e ao Silo.Também escrevo para o jornal Expressão à convite do Ronaldo, secretário de cultura de Paraty e um dos líderes da comunidade do Quilombo, uma coluna dedicada à musica local,tradicional e contemporânea. Quanto eu for à Paraty novamente vou procurá-la. Um abraço

  11. Helio Ricardo Correa de Mello disse:

    Olá Cláudia,

    Parabéns pelo texto que dá saudade em quem conhece e desperta em quem não conhece a vontade de conhecer o Quilombo Campinho da Independência!

    Um abraço,

    Hélio.

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